O solo "Vozes do outono" foi aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura pelo Edital 265-10 de Pesquisa em Dança da Casa Hoffmann Centro de Estudo de Movimentos em 2011 pela Fundação Cultural de Curitiba. A estreia aconteceu no dia 27 de setembro de 2011 no evento DANCON Liga Cultural de Dança em Belo Horizonte.

sábado, 28 de maio de 2011

Arte noir, o butoh além de dança é filosofia de expressão – Por Ana Lúcia Vasconcelos

Texto retirado desse link.

O Butoh faz parte da novíssima tendência noir, surgida depois da II Guerra e pretende expressar a desesperança dos homens perante a vida. Mais que uma simples dança é uma filosofia de expressão. Suas coreografias retratam principalmente o estado de ânimo do povo japonês, após as explosões de Hiroshima e Nagasaki - o único povo da Terra sujeito a tal horror.No entanto, apesar de tal cataclismo, a visão do Butoh é poética e profundamente oriental, encontrando paralelo na concepção do poeta francês Charles Baudelaire (As Flores do Mal) que acredita existir beleza até no crime e na miséria. Sua temática sombria vai buscar inspiração numa combinação de decadência física do ser humano e na escuridão existente na sua alma, numa tentativa de exprimir as áreas conturbadas do seu subconsciente e mostrá-lo nos seus instintos mais primitivos e brutais.

Mudança de estilo e postura

Enquanto a dança tradicional japonesa foi sempre ligada ao folclore, com seu estilo próprio, tendo entre seus temas de eleição os relacionados com a natureza-nas comunidades de pescadores, tinham por tema o mar, enquanto os povos das montanhas inspiravam-se para suas coreografias, nas transformações do tempo, nas mudanças e na qualidade da luz, variáveis segundo as estações do ano, a dança contemporânea apresenta uma mudança fundamental de estilo e de postura.
Criada depois da II Guerra Mundial, os artistas das novas tendências começaram a contestar o caráter ufanista da tradicional arte japonesa, que realçava especialmente os valores locais, e passaram a dar mais ênfase às qualidades intrínsecas do sentimento, traduzindo-os numa linguagem universal. Mas esta mudança, como explicam os especialistas do assunto, não significou um passo para a sua ocidentalização - apenas uma postura da arte contemporânea japonesa de resgatar os valores intrínsecos da sua cultura.
Atualmente o Butoh é o movimento mais importante da dança japonesa. Foi criado por Kazuo Ohno e Tetsuro Hijikata e está dividido em duas correntes: a do próprio Ohno, menos pessimista em relação ao futuro da humanidade e a de Hijikata, mais agressiva. A companhia japonesa Sankai Juku, fundada em 1975 sob direção de Ushio Amagatsu coreógrafo e principal bailarino, discípulo de Hijikata, é a mais importante do mundo e o mais famoso grupo não apenas no Oriente Médio, mas na Europa e Estados Unidos, onde tem obtido reconhecimento do público e da critica.

Passos no negrume da existência

Bu significa dança e toh - passos, e estas palavras vêm sempre ligados: Un é escuro e Kohu que é negrume, para significar a dança no escuro, passos no negrume da existência, deixando claro que os criadores do Butoh querem deixar aos homens a advertência: apesar de toda sua civilização e conhecimento, o ser humano continua a ser uma poeira no universo ainda longe da perfeição.
Afinal sua busca desenfreada pelo progresso tecnológico talvez o leve à destruição, sem atingir o estágio ideal. Ushio Amagatsu esteve com seu grupo Sankai Juku no Carlton Dance Festival realizado em São Paulo há alguns anos, e contou em diversas entrevistas a estória do grupo e sua filosofia de trabalho.
Segundo Ushio Amagatsu, San quer dizer montanha e kai, mar. Juku pode ser traduzido como atelier. O grupo fundado 1975 com um grupo de 30 bailarinos entre homens e mulheres conta hoje com apenas quatro integrantes além dele: Keiji Morita, Atsushi Ogata, Touru Iwashita e Sho Takeushi. Ele considera Kazuo Ohno uma espécie de pai do butoh, embora esta sua segunda geração não tenha propriamente uma inspiração no seu trabalho ou no de Tetsuro Ijikata.
Na verdade, ele diz que todos os trabalhos de butoh-e hoje já existe até a quarta geração, tem inspiração própria. A coreografia que trouxe para o Brasil faz parte do trabalho Kinkan Shonen, criado em 1978 que mostra, segundo ele, um pouco do que é o grupo. “Não há narrativa, apenas sete séries de imagens que se referem a um sonho entre a vida e a morte. Nesta época ainda não trabalhávamos com musica original o que viemos a fazer depois do ano 80”.

Ushio Amagatsu define o estilo do butoh como uma homenagem ao homem, ao ser humano. A cabeça raspada e o corpo pintado de branco é uma simbologia para traduzir a simplicidade. Através da brancura, homem apaga as marcas individuais para privilegiar o aspecto global do grupo, da humanidade.
No entanto, é também uma atitude paradoxal, uma vez que, através da homogeneização do grupo se percebe com clareza as diferenças individuais. Assim como cada bailarino pode expressar a sua diferenças, cada espectador a partir da sua experiência de vida reconhecerá de maneira diversa a apresentação. Fala-se que o butoh foi criado após a II Guerra, Hiroxima e Nagasaki, ele lembra.
“É verdade. Mas eu pessoalmente prefiro não me restringir a essas tragédias e ter uma visão otimista do todo. Quanto ao aspecto religioso, se insere na obra apenas indiretamente já que sou japonês e tenho uma carga cultural por trás da minha formação que inclui religiosidade”.

Trabalhando com o tempo e o espaço

Ushio Amagatsu considera difícil explicar seu processo criativo. Normalmente, ele explica, todas as obras partem de um processo de vida. “Às vezes uma se assemelha a outra, as pessoas dizem, mas para mim são diferentes. Parto da descontinuidade para a continuidade de um trabalho. Pode ocorrer de várias maneiras. Se vou a um museu e, por exemplo, fico intrigado com uma obra começo a dialogar com ela. Outro exemplo: se pegarmos o tema vento, é possível associá-lo àquilo que sentimos entre o braço e o corpo quando fazemos o movimento de alongar o braço para a direita. Olhando no espelho como os ocidentais costumam fazer, é possível até imitar o movimento do vento. No entanto, me interessa outra perspectiva. Como se o espelho estivesse dentro do corpo. Cada um de nós tem uma força dentro capaz de perceber o que é a sensação do vento. Sensibilizar o ponto em que se percebe isto com maior clareza e transparecer através do corpo esta sensação seria o verdadeiro vento para mim. Assim, mesmo que todo um grupo realize o mesmo movimento, o gesto será diferente. Cada pessoa tema o seu captador. Por isso é importante que muitos” movimentos não sejam predeterminados.
Para ele, cada individua tem dentro de si um sentido de tempo e espaço. Correndo atrás de um movimento ele diz que se move para chegar ao movimento almejado. O sentimento é um aquecedor que existe dentro do movimento. Quando chegamos ao gesto desejado, ele consegue puxar esta sensação. Aí nasce a vida, o fluxo de energia, o calor da dança. Neste estágio o “feeling” de tempo e espaço que todos guardamos pode florescer.

Quanto a influencia dos elementos da natureza e a técnica butoh, sua preocupação principal é com relação ao globalismo das coisas e aos simbolismos. “Se encontramos um desenho na parede de uma caverna não quer dizer que o desenhista viu o animal lá dentro. Na dança também é assim. A dança seria o trabalho de fixação das sensações do corpo. As sensações nascem na natureza. O corpo filtra e simboliza”.
Contando como realiza o trabalho com os dançarinos, enfim, como trabalha com seu grupo, afirma que seja difícil transportar uma cultura para outra. Por isso nos workshops, evita explicar a técnica butoh. “Ela não é importante. Falo sobre o corpo, o aspecto de tensão e relaxamento que são fundamentais, o astral da dança. A cultura de cada individua é que vai influir na formação física do corpo, determinar o estilo da dança e como vai ser. Mesmo os meus bailarinos não são obrigados a seguir qualquer tipo de disciplina. Cada um sabe como deve se preparar. Se é possível uma integração oriente / ocidente eu não sei. Bob Wilson em Nova York trabalha com uma japonesa do estúdio Hanayagi que dança a tradição do Japão. É uma tentativa.”

Dançar é uma fase da vida

Ushio considera que a dança é uma fase da vida. A criança está na barriga da mãe, nasce, sente, engatinha, anda e dança. Simples, nada mais que isso. Quanto a situação da dança no Japão hoje, considera que há a dança oficial acadêmica, que é a clássica e a moderna, que freqüentou antes de iniciar o butoh, sem falar obviamente nas danças tradicionais japonesas, que são mais familiares. O butoh não é acadêmico, acontece mais em pequenas academias, uma vez que é considerado experimental. No entanto, em Tókio onde trabalha, há danças de todo o mundo como flamenco, arte indiana, etc. E justamente por causa disso, por morar numa cidade com alta tecnologia e uma vida agitada, a vê na dança um papel fundamental. “É a maneira de expressar sentimentos humanos através do corpo. Um jeito de sobreviver de forma mais humana em meio a apelos comerciais”.


Altamente imprevisível para o publico

No Brasil, mais exatamente em São Paulo, o primeiro a lançar o Butoh foi o coreógrafo e criador cênico Takao Kusuno no espetáculo Corpo I que ganhou o prêmio de Melhor Coreografia da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) de l979. Com este espetáculo Takao criou grande impacto, já que sua coreografia quebrava os cânones da dança conhecida até então, inclusive a contemporânea brasileira, pois o Butoh é uma dança de tensões e não de sensações. “Ela é altamente impactante” na opinião de Jo Kahshi, da Fundação Brasi-l Japão, “principalmente pela sua imprevisibilidade”. No Butoh não há a perseguição a musica. Ela corre paralela, e às vezes em total desencontro com ela, o que a torna altamente imprevisível para o público”.

Entrevista de Mário Kodama da International Press com Kazuo Ohno

I P- O que é o butoh para o senhor?

Kazuo Ohno - É uma pergunta difícil de responder. Cada dançarino tem seu próprio butoh. Não existe um método, porque a dança é a expressão do interior de cada um. Por isso é singular em cada pessoa. Para mim, o butoh é, com palavras simples, apreciar a vida, minha e dos outros.

I. P. - O senhor teve alguma influência da dança ocidental?

Ohno - Posso dizer que tive influência do balé clássico depois de Isadora Duncan (1878-1910), que tirou as sapatilhas e começou a dança livre, rompendo com as formas do balé; também de Mary Wigman (1886-1973), que pertenceu à dança de vanguarda alemã dos anos 30 e uma das criadoras do expressionismo na Alemanha. A dança de Wigman era completamente diferente do balé e da dança de Duncan. Era uma dança que nasce no interior, na intimidade do ser humano.

I. P.- Onde o senhor aprendeu a dançar?

Ohno - No último ano da faculdade , em janeiro de 1929 , fui assistir à apresentação da dançarina espanhola Antonia Mêrce no Teatro Imperial, em Tóquio. Fiquei muito emocionado. Tive a impressão que era a dança da Gênese, da criação. Não sei outra maneira de explicar a sua arte. E, 50 anos depois, eu fiz a primeira apresentação de "La Argentina”, baseada nessas memórias. Ao me formar pela faculdade de educação física Nihon Taiikukai Taisoo Gakko (atual Nihon Taiiku Daigaku), lecionei cinco anos no colégio Kantoo Gakuin em Yokohama, só para homens. Saí posteriormente para fazer um curso de dança de Baku Ishii para conseguir emprego em um colégio feminino e ensinar ginástica rítmica, mas também não achava muita graça nisso. Sentia a falta de emoção. Queria aprender e ensinar dança artística. Queria fazer a dança que expressasse sentimentos humanos, amor alegria, coisas da vida, natureza, universo. Comecei a aprender dança moderna no estúdio de Takaya Eguchi, que estudou na escola Wigman, em Berlim. Só em 1949, com 43 anos, fiz a minha primeira apresentação solo.

I. P. - Como o senhor conheceu Tatsumi Hijikata (um dos mestres que, com Kazuo e Min Tanaka, criaram o butoh nos anos 60)?

Ohno - Ele assistia às minhas apresentações e um dia veio me visitar. Foi assim que nos conhecemos. Meu filho Yoshito começou a carreira com Hijikata na peça "Kinjiki”, baseada na obra de Yukio Mishima , em 1959 , que chocou o público e o mundo da dança do Japão daquela época.

I. P. - E como surgiu o butoh?

Ohno - Penso que meu butoh nasceu como o ser humano nasce do corpo da mãe, e aconteceu no momento em que interpretei a personagem Divina da obra "Nossa Senhora das Flores" (de Jean Genet), em julho de 1960. Nesse instante a minha vida brotou da escuridão e brilhou em cinco cores. Esta foi nossa (dele e de Hijikata) primeira apresentação e começamos a trabalhar juntos. Mas as primeiras apresentações que fizemos tinha mais as características de Hijikata.

I. P. - Como foi o processo de transformação que o senhor sofreu até chegar ao butoh?

Ohno - Eu penso que há algo em comum entre a energia de nascimento de uma vida e a do nascimento do Universo. Existe uma força centrípeta entre mãe e filho, como entre o Sol e os planetas do sistema Solar. Tudo o que existe nesse mundo é ligado profundamente com o Universo. Mas a dança moderna não incluía esses fenômenos básicos da natureza, as relações entre ser humano, morte, vida, amor, universo, natureza e outros temas essenciais, nem o expressionismo alemão. O envolvimento com estas questões foram nossos mestres e crescemos com elas. É isto que expresso no meu butoh.

I. P. - Está havendo uma renovação na dança moderna japonesa?

Ohno - Não tenho conhecimento de que alguém esteja fazendo algo realmente novo. Há muita gente que procura chamar a atenção só por ser esquisito excêntrico. Mas não conheço ninguém que trate das questões filosóficas essenciais como as que eu trato. Talvez eu seja o único que as tento expressar. Não adianta pensar com a mente como é que se deve viver. A vida tem que ser descoberta no dia-dia O que apresento no meu butoh é tudo que eu vivo na minha vida. Premeditar as coisas nem sempre dá certo. Por exemplo, guerras, devastação do meio ambiente são feitas pelas pessoas que planejam demais. Acho que nós devemos dar mais importância aos sentimentos e respeitá-los.

I.P. - Quantas vezes o senhor foi ao Brasil? E o que achou?

Ohno - Já fui duas ou três vezes. Pode ser que volte de novo no ano que vem. Brasileiros são assim (ele uniu os braços num forte aperto de mãos). Eles me trataram muito bem. Em qualquer lugar que eu ia, sempre ficava cercado por muita gente. Fiquei impressionado pela minha popularidade no Brasil. Vi matérias sobre mim na capa dos jornais. Quando fui assistir à apresentação de "Macunaíma" (peça de Antunes Filho baseada no texto homônimo de Mário de Andrade), eles souberam que eu estava lá e me convidaram para subir ao palco, e dancei com improvisação. Muitas pessoas organizaram festas para mim, inclusive o embaixador francês no Brasil.

Fonte: Jornal: International Press- Entrevista de Mário Kodama - intérprete, Kunihiro Otsuka, Seção: Lazer e Cultura - Página 5-B - Japão, 24 de setembro de 1995.

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